Livro A Filosofia de Andy Warhol

O artista plástico que profetizou que um dia todos seriam famosos por 15 minutos é analisado no livro ‘A Filosofia de Andy Warhol’.

Marco Giannotti
Folhapress

Não é arte nova, você não sabe o que é arte nova, você não sabe o que é. Não vira nova até uns dez anos depois, porque aí parece nova

Não é arte nova, você não sabe o que é arte nova, você não sabe o que é. Não vira nova até uns dez anos depois, porque aí parece nova

SÃO PAULO – “Não é arte nova, você não sabe o que é arte nova, você não sabe o que é. Não vira nova até uns dez anos depois, porque aí parece nova.”

Artistas que buscam a fama por 15 minutos nem sempre resistem à passagem do tempo. Contudo, Andy Warhol é o exemplo exatamente oposto desta célebre frase proferida por ele mesmo. O ícone da arte pop americana morreu em 1987, mas sua arte está mais contemporânea do que nunca.

Essa contradição aparente perpassa sua filosofia, de 1975, vertida agora para o português pela Cobogó. “A Filosofia de Andy Warhol – De A a B e de Volta a A” ganha aqui uma versão um pouco truncada, além de usar termos em inglês que mereceriam nota explicativa. Uma introdução crítica também facilitaria os meandros do texto. Mesmo assim a edição merece ser comemorada.

Warhol diz que sua namorada é o gravador, o alter ego de Warhol, que gostaria de ser uma máquina. O texto, editado por Pat Hackett, é sinuoso – nunca sabemos ao certo com quem o autor fala. “B é alguém, e eu não sou ninguém. B e eu.” Assim como em Rimbaud, o sujeito se faz na alteridade. Aos poucos, B deixa de ser uma mulher, Brigid Polk, para se transfigurar num personagem masculino, talvez Bob Colacello.

Acreditando na aparência, Warhol considera a imagem mais real que o referente, como no célebre quadro que retrata Marilyn Monroe, feito uma semana após a morte da atriz. A realidade é tratada como um negativo, algo que deve se apagar. “A minha cabeça é como um gravador de um só botão: o de apagar”, comenta o artista.

Maquiagem

O artista pinta ao mesmo tempo em que maquia as imagens. A maquiagem, técnica de esconder defeitos e criar uma beleza eterna e no entanto efêmera, nos leva a uma descrição de Baudelaire sobre “O Pintor da Vida Moderna”, texto em que se vêem semelhanças notáveis com as idéias de Warhol.

O artista descrito por Baudelaire é Constantin Guys, mas aparece no texto como “monsieur G.”. Assim como A (Andy), é um pintor de modos, observador, “flaneur”, filósofo, dândi, algumas vezes poeta. É o pintor das circunstâncias e de tudo o que sugere o eterno.

Baudelaire diz que gostaria de acreditar que G. não existe, nada mais sendo que um anônimo na multidão, assim como Warhol em seu estúdio Factory. O pintor moderno tem a sensibilidade de uma criança convalescente; já Warhol, após três colapsos nervosos na infância, só busca um psiquiatra por estar contaminado pelos problemas alheios, e por fim o troca por uma TV.

O artista moderno se interessa vivamente pelas coisas, por mais triviais que sejam, e o mundo é seu domínio. Ele atravessa os desvios da alta cultura e da cultura popular assim como Warhol colocava a arte no mundo da propaganda e vice-versa. Neste mundo do artifício, considerações brilhantes sobre o mundo da arte, da moda, do sucesso, do tempo e da morte se fazem presentes.

Autoconsciência

A obra de Warhol sensibilizou de tal modo filósofos em voga, como Arthur Danto, que este chegou a afirmar em artigo que “entre as grandes contribuições de Warhol para a história da arte está o fato de que ele colocou a prática artística no nível de uma autoconsciência filosófica jamais atingida”.

Warhol vira o maior artista-filósofo de todos os tempos, como se antes os artistas fossem superficiais. Contudo, seu depoimento tem o mérito de ser uma crítica voraz à sociedade de consumo americana.

O livro ilustra bem como saímos da era da contemplação e entramos na da informação. Warhol teve papel fundamental nessa mudança de paradigma da arte contemporânea, em que a obra muitas vezes é vista por apenas 15 minutos. Sua originalidade está em incorporar novas técnicas de reprodução do mundo sem se deixar dominar por elas, conferindo-lhes nova dimensão e virtualidade.

Fonte: http://www.emtempo.com.br